

"Sou um Operário Cultural". É dessa forma que o artista visual e arte-educador Denissena [33], se auto denomina sempre que é questionado sobre seu papel social.
A soma estabelecida entre Arte e Sociedade é nitidamente percebida durante todo o discurso e vivência de Denissena.
Sempre empenhado nas causas coletivas e visando o aperfeiçoamento de suas técinas de trabalho, tem colocado o artista entre os mais lembrados e requisitados por empresários, arquitetos e curadores da Bahia.
Numa nova fase profissional, Denissena que já expôs seus trabalhos em diversos partes do mundo com destaque para Estados Unidos e Japão, alterna agora entre as vias públicas das metrópoles e as grandes galerias de arte, reservou um tempinho para conversar abertamente com o Portal Axezeiro, sobre seus novos projetos e as dificuldades enfrentadas nesse mercado tão competitivo.
Confira!
Portal Axezeiro: Qual sua formação ?
Denissena: Autodidata, exploro graffiti, arte digital, esculturas, instalação, pinturas em
telas e desenho.
PA: Você passou de pichador à grafiteiro. Hoje chamado e reconhecido como artista visual.
Como encara essas mudanças?
DS: Bem, não fui pichador. Conheci o graffiti, através da ONG Projeto Cidadão,
da qual sou voluntário há 10 anos. Sempre tive o contato com a arte, tudo muito
natural. Confesso que já fui discriminado há alguns anos atrás, hoje a minha arte
é valorizada e reconhecida. Tudo isso é fruto de dedicação e amor à plasticidade
contemporânea.
PA: Como foi essa discriminação sofrida? Foi mascarada ou escancarada?
DS: Pintando várias vezes nas ruas, algumas pessoas entendiam como ato
de vandalismo. Isso mexia comigo e ao mesmo tempo entendia, que era falta de
informação e cultura na vida de muitas pessoas de diversas classes sociais. Como a
minha arte é muito mais forte, Sempre encarei de verdade o que faço. A minha arte tem
personalidade e represento através das minhas pinturas, que revela quem eu sou.
Vale ressaltar que, a transgressão é essência do graffiti, importante conceito.
PA: O que você busca através de seu trabalho?
DS: A arte me desperta diversos sentimentos e sempre busco a paz interior. A
pintura urbana é um diálogo e para que eu possa dialogar, preciso estar bem. Tem diversas
energias nas ruas. O primeiro passo é pedir licença aos ancestrais e a natureza. É uma questão de espiritualidade, que exige atenção e conhecimento. A nossa Bahia por exemplo, é cheia de magia e caos urbanos.
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PA: Seu trabalho é feito para quem?
DS: Primeiramente a mim, logo aos ancestrais, e claro, o social. O povo é meu
alvo, até porque, é um diálogo contemporâneo através da plasticidade. A arte me alimenta
em todos os sentidos. A minha fé é o meu jogo de cintura, ela me move e me faz voar.
PA: É forte a presença do sobrenatural em seu trabalho. Tanto nas telas que ocupam lugar
em diversos espaços expositivos, como ao ar livre nas ruas das grandes cidades. A
exposição Agdas na contemporaneidade, que irá nos próximos meses para África, revela
essa sua ligação com o divino. Como se deu esse encontro?
DS: Alguns anos atrás eu não tinha conhecimentos da força ancestral, até mesmo
na escola não fui educado. Através de amigos, que são referências em minha vida, fui conhecendo as culturas indígena afro-brasileira, a partir daí fui entender que faz parte de minhas raízes e formação cultural.
Nas minhas obras, há uma forte presença ancestral, que representa a minha identidade. Quanto pinto, por exemplo, elementos das culturas indígena-afro, combato o preconceito, a intolerância religiosa e desperto a valorização da identidade baiana. Isso me fascina, pois é profundo. Quanto mais pesquiso, vou longe e me alimento da fonte cultural. Muitos jovens precisam conhecer as nossas culturas e saber usar as armas. A minha arma é a arte.
Na verdade, há diversos estereótipos. Queria ver muita gente ‘antenada’ no mundo da plasticidade, do teatro, dança espetáculos de teatros e muito mais. Infelizmente é uma minoria, que conhece a força da arte. É por isso, que me ligo na educação social.
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PA: Quais são os países que você já levou sua arte?
DS: Nova York, Tókio e Angola. Meu site é acessado por diversos países (www.denissena.com).
PA: Você consegue sobreviver de sua arte? como você se vira?
DS: Sim. Sou arte-educador e desenvolvo diversos projetos, que atuam em diversas instituições, que na maioria aprovam projetos culturais.
PA: Em que consiste esses projetos? É tão somente ensinar a grafitar ou tem um acompanhamento no pós-aprendizado? Depois que eles aprendem, existe um direcionamento para o mercado de trabalho?
DS: Eu, Denissena, artista, atuo muito na área de decoração, trabalho com arquitetos e decoradores ambientes. Consiste no desenvolvimento técnico e teórico nos projetos pedagógicos, voltado à linguagem graffiti. Quando levo minhas obras para as empresas, é um novo diálogo, já que muitos ainda não conhecem a força da arte contemporânea. Torna-se um aprendizado no dia a dia. Em se tratando dos alunos, primeiro, aprendizado é uma ação contínua. São poucos, os que conseguem chegar ao mercado cultural,por exemplo. Até porque, é muito restrito, mas muitos conseguem trabalhar em outras áreas e encaram o graffiti como hobby, minha luta é que todos possam sobreviver da arte. Eles passam a ver o mundo com outros olhos, isso já uma grande mudança na prática. Uma das questões mais importantes, que acredito que passam a estar na vida dos educados, além da cidadania e transformar os jovens em seres politizados. Isso desperta conhecimentos e o mecanismo da nossa sociedade complexa. A ociosidade está muito presente na vida de muitos jovens, que vivem na periferia. Muitos passam pela ONG, mas não dão continuidade ao que aprendeu. Tudo é uma questão de escolha.
PA: Qual a marca de Denissena?
DS: Minha espinha de peixe. O meu forte são as figuras humanas e o abstracionismo. As minhas icnografias tem a minha identidade e represento nas minhas obras. Hoje assino Denissena, tudo junto. Tenho influência das culturas indígena-afro, natureza e outros elementos universais. Tudo isso estará na minha mostra da Caixa Cultural, Expo Graffiti Bahia com curadoria do artista Cesar Romero, fotos de Uran Rodrigues.
PA: O que será mostrado nessa exposição?
DS: Pintura em telas, sendo que a mostra tem como tema Graffiti Bahia. Exploro figuras humanas, abstratos e elementos que compõem a nossa cultura baiana. Será em outubro 2010.
PA: Você já fez releituras de obras importantes das artes plásticas ou sempre preza pela autoriedade?
DS: Sim, já fiz poucas. Prefiro as minhas criações, o meu traço é inconfundível, muitos falam. Identidade é tudo!
PA: Mas, quais já fez?
DS: Fiz a releitura da imagem do ator baiano negro Mário Gusmão, mas ficou no meu estilo. A fotografia era ‘bala’, serviu como referência, além do Vinicius de Moraes, que foi homenageado no palco da Barra, fim de ano. Ficou muito legal e fiz na técnica graffiti.Tenho mais de 170 cadernos de desenhos, isso me possibilitou criar um estilo próprio. Comecei desde guri, quando certo dia, meu pai pediu que eu desenhasse minha querida mãe, que está em outro plano espiritual. A mostra de outubro na caixa Cultural é dedicada a ela “Estersena". Família é sintonia e me inspiram também.
PA: Deixe agora um recado para os internautas do Portal Axezeiro.com:
DS: É importante acreditar no que sonhamos. O universo conspira a favor quando nos movemos em prol de algo, principalmente quando alimenta a alma. A contemporaneidade requer que estejamos antenados e com muito amor no coração. Revolucione!
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