Portal Axezeiro: Quando se deu a mudança de Valdemira Telma de Jesus para Negra Jhô?
Negra Jhô: Eu sou a terceira de sete irmãos, e desde criança eu era muito extrovertida e curiosa e gostava de ser diferente das outras crianças. Pelo simples fato dos meus cabelos crescer muito pouco, era motivo suficiente para zombaria de tios e outras crianças. O meu irmão Nilton começou a me chamar de João, apelido que logo se espalhou pela minha família e pegou.
Anos depois, o apelido de João virou “Jonh!” pelo mesmo irmão brincalhão e foi quase pro acaso que, certa feita, a minha amiga Lúcia me chamou do portão: “negra!”, ao mesmo tempo meu irmão replicou com sarcasmos “Jonh!”. O mundo parou por um instante naquela sonoridade eu me sentir batizada com aquela junção. E dali para frente eu me tornei Negra Jhô.
PA: O que fazia antes de trabalhar com penteados?
NJ: Os penteados afros sempre estiveram presentes em minha vida, pois na minha infância, eu tinha que trançar os cabelos das minhas irmãs. Aprendi a gostar da arte, e assim estava sempre tentando criar algo novo nas cabeças das minhas irmãs, vizinhas e etc. Automaticamente a arte de trançar começou a gerar uma pequena renda pra mim nas horas vagas. Já trabalhei como vendedora em algumas lojas, como recepcionista de teatro, como diarista, mais sempre dividindo o meu tempo com a dança e arte de trançar.
PA: O que mudou no mercado de quando você começou [a quanto tempo] até hoje?
NJ: Em Feira de Santana, cidade onde morei no anos 80 era contado de dedo as mulheres que tinham atitude de usar penteados afros, naquela época o preconceito e discriminação era enorme. Viajei várias vezes para capital “Salvador” onde já encontrei numa proporção maior, mulheres parecidas comigo. Mais ainda era muito pouco para difundir no mercado a nossa história o nosso valor.
Com muita atitude decidi mudar para Salvador e fui bater no Pelourinho, na casa de uma amiga. Procurei um salão para fazer o que melhor sabia na vida, mais não consegui algo que me remunerasse e me valorizasse enquanto mulher negra, guerreira.
O povo não acreditou quando coloquei uma cadeira em pleno Largo do Pelourinho, para fazer os cabelos da freguesia. Tranças, torsos, turbantes, amarrações. O boca-a boca espalhou se e assim foi aumentando a procura e diante dos meus olhos vi mulheres se transformando, acreditando que ser mulher negra assumida fazia a diferença, tenho certeza que fui uma das percussoras dessa cultura no mundo. Hoje vejo em todos os lugares mulheres negras esbanjando sensualidades, belezas, auto estima. A trança até virou referência no mundo da moda, da África para o mundo.
PA: O que existe de diferente em seu trabalho para as outras meninas do Pelourinho?
NJ: Eu como autodidata acredito que essa magia de resgatar o valor da nossa ancestralidade, tem que ser feito com muito respeito e amor a arte. Hoje eu tenho um pequeno espaço onde trabalho com a minha arte, espaço conquistado com muito suor, muita luta e perseverança. As meninas do Pelourinho que estão nas ruas, estão na fase que eu também já passei, ainda pior, pois naquela época não tinha apoio, associação, nada que pudéssemos recorrer. A diferença é exatamente essa trajetória, acredito se as meninas trabalharem com seriedade, valorizando a nossa cultura e com muito amor a arte, essa diferença vai ser igualada no futuro.
PA: Por que trabalhar somente com afros? Você é preconceituosa?
NJ: Eu sou remanescente de quilombo, nasci na Fazenda Caípe, entre Candeias e Madre de Deus, filha de Ogum com Iansã, destinada e ter caminhos abertos, não tinha como ser diferente, somente Deus e os Orixás para decifrar o porquê dessa missão.
Fico muito chateada com as pessoas preconceituosas, a vida me ensinou a respeitar o direito e deveres de todos independente de sexo, cor e religião, já convivi com pessoas de várias religiões, raças, opções sexuais e etc, enquanto me respeitar como mãe, mulher e negra, estaremos falando a mesma língua.
PA: Como começou sua aproximação com o mundo gay?
NJ: Sempre tive amigos gays, eles estiveram presentes em minha trajetória, eles me adoram! A minha presença ilustre nas caminhadas Gay da Bahia me concedeu o título de “Madrinha dos Gays da Bahia”.
PA: Quais foram às celebridades que passaram pelo salão da Jhô? Qual foi o mais exigente? Como é o tratamento para com os mesmos?
NJ: No meu salão já passaram personalidades como Carlinhos Bronw, Daniela Mercury, Mariana Ximenes, Lázaro Ramos, Aloísio Menezes, Portela Açúcar, Afro Jhow, Márcia Short, Tiago Lacerda, Wanda Sheise, Gil Melândia, Sandra de Sá, Tony Garrido, Virginia Rodrigues e muitos outros artistas. A maioria deles chegam ao meu salão com muitas idéias, mais acabam deixando por minha conta e graças a Deus sempre saíram satisfeito com os resultados. O tratamento para com nossos clientes em geral é o mesmo! Muita descontração, um bom papo e capricho nos penteados, ser o mais natural possível com todos é o diferencial do nosso trabalho.
PA: Quem é mais decidido na hora do penteado: o homem ou a mulher? Qual o público mais procura os seus serviços?
NJ: Com certeza as mulheres são mais decididas na hora de escolher os penteados, elas são mais detalhistas e estão sempre procurando uma forma de surpreender como novos penteados. 55% dos meus clientes são homens e na sua maioria chegam indeciso nas opções de penteados.
PA: Seus 50 anos de vida se confundem com a história do Pelô. Raça, determinação, coragem, fibra. O que falta para Jhô?
NJ: A minha trajetória de vida, não semelha somente a história do Pelourinho. Eu trago na minha história muitas batalhas, muitas lutas, vitórias, decepções, superações... Aprendi a ser uma mulher determinada desde quando perdi o meu maior tesouro aos 16 anos, minha mãe Mª Rosália do Sacramento. Cheguei no Pelourinho em 1900
PA: Sua popularidade rendeu papel na encenação da crucificação de Cristo, apresentada no Pelô[ano? Papel?]. Qual foi a emoção? Qual sua religião?
NJ: Sou uma mulher negra de referência e acredito que isso é muito positivo para abrir caminhos para outras vertentes. Eles tinham o cristo negro, e queriam uma mulher negra para representar “Maria” a mãe de cristo. Recebi o convite em 2005 para atuar no Projeto “O Salvador em Salvador” e tive um desempenho aprovado por vários profissionais na área. Assim atuando em 2006 no Dique do Tororó e 2009 no Santo Antonio Alem do Carmo. Me emocionei muito na sena em que cristo é crucificado e vivi aquilo em realidade. Eu acredito em Deus e sou adepta do candomblé.
PA: Filha de Ogum com Iansã. Como lidar com a vaidade e o fogo ao mesmo tempo?
NJ: A minha história de vida é resumida com essas duas essências da natureza, sou mulher muito vaidosa, gosto de está sempre bonita, positiva e de bem com a vida. O fogo me ilumina, brilha meu corpo e queima toda negatividade que se aproxima. Ogum abre os meus caminhos e Iansã encanta com sua beleza, força e axé.
PA: Deixe um recado para os internautas do Portal Axezeiro.com. Convide a negritude para conhecer o salão.
NJ: Desejo muito axé pra todos os Axezeiros, muita positividade, paz e equilíbrio.
As portas do meu salão estão abertas a todos que venham em missão de paz, que venham somar com a nossa cultura, no momento estamos nos organizando para uma reforma, para melhor conforto dos nossos amigos e clientes.
Muito Axé, Sem luta não há vitória!
Fotos: Uran Rodrigues